Recentemente, diversas áreas do conhecimento adotaram o território como conceito essencial em suas análises. Todavia, o conceito de território é utilizado como uma dimensão das relações sociais, enquanto na verdade, o território é multidimensional, constituindo-se em uma totalidade. Mesmo, muitos geógrafos trabalham com os conceitos de espaço e de território a partir de uma visão unidimensional, muitas vezes importada de outras áreas do conhecimento. Este artigo é um novo ensaio de uma reflexão maior em realização no Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (NERA) do Departamento de Geografia da Unesp, campus de Presidente Prudente (São Paulo – Brasil). Reforçamos nossos argumentos sobre a importância dos conceitos de movimentos socioterritorial e socioespacial para estudar as realidades contemporâneas frente às mudanças paradigmáticas. As idéias aqui apresentadas ainda estão em processo de formação, todavia se constituindo como referências importantes para as leituras geográficas dos movimentos sociais. Essa é a contribuição contida na parte referente aos movimentos socioterritoriais e socioespaciais. Hoje, frente aos intensos processos de exclusão social provocados pelas políticas neoliberais, urge pensar os espaços e os territórios como forma de compreender melhor as conflitualidades. Acreditamos que este artigo provoca essa questão e a coloca em movimento, revelando espaços e territórios antes não pensados.
Discute a interdisciplinaridade como um movimento contemporâneo presente nas dimensões da epistemologia e da pedagogia, que vem marcando o rompimento com uma visão cartesiana e mecanicista de mundo e de educação e, ao mesmo tempo, assumindo uma concepção mais integradora, dialética e totalizadora na construção do conhecimento e da prática pedagógica. Inicialmente, faz-se uma breve apresentação da origem histórica desse movimento, discutem-se aspectos de sua conceituação e suas implicações no campo das diferentes ciências contemporâneas para então apresentar a interdisciplinaridade como um importante fenômeno de articulação do processo de ensino e aprendizagem. A argumentação apresentada no texto busca destacar que o movimento da interdisciplinaridade pode transformar profundamente a qualidade da educação escolar por intermédio de seus processos de ensino.
Resumo: Neste artigo, procuro contextualizar o movimento LGBT em relação às mudanças ocorridas desde os anos 1980 na relação entre Estado e movimentos sociais, bem como na forma de operar políticas públicas, no Brasil, e em relação à agenda dos direitos humanos em âmbito internacional. Dentro dessa perspectiva, proponho uma discussão sobre o movimento LGBT contemporâneo e sua relação com o Estado e as perspectivas de transformação social que se colocam nesse contexto. Procuro, ainda, lançar um olhar mais específico para o impacto de mudanças recentes no movimento, tomando por base uma reflexão sobre a relação entre o movimento e aqueles(as) que poderiam se considerar ou ser considerados(as) como parte da "base" desse movimento
Até a Conferência da ONU no Rio de Janeiro em 1992, era grande a desconfiança dos movimentos sociais tradicionais com relação ao discurso ambiental. A partir de 2001, essa distância começou a se reduzir, coincidindo com a criação da Rede Brasileira de Justiça Ambiental. O presente artigo descreve os passos da constituição dessa Rede, procurando caracterizar o processo de reapropriação local da experiência internacional dos movimentos por justiça ambiental, discutindo como se procurou superar a dissociação corrente entre as questões ambientais e as questões sociais, ao mesmo tempo que se expandiu o sentido da noção de "justiça ambiental" originalmente concebido por movimentos sociais nos Estados Unidos.
Este artigo discute o papel do movimento negro brasileiro na ressignificação e politização da ideia de raça. A raça é aqui entendida como construção social que marca, de forma estrutural e estruturante, as sociedades latino-americanas, em especial, a brasileira. Ao refletir sobre a atuação do movimento negro, parte-se da premissa de que este movimento social, por meio de suas ações políticas, sobretudo em prol da educação, reeduca a si próprio, o Estado, a sociedade e o campo educacional sobre as relações étnico-raciais no Brasil, caminhando rumo à emancipação social. A ideia de raça analisada no presente artigo se assenta na reflexão realizada pelos estudos pós-coloniais, que discutem a sua centralidade nos países com passado colonial e a sua operacionalidade nas relações de poder, as quais têm sido mantidas e subsistem no pensamento moderno ocidental, inclusive, no educacional.
As relações entre movimentos sociais, partidos políticos e Estado tornaram-se, nas últimas décadas, um dos focos centrais de problematização teórica e investigação empírica no campo de estudos sobre movimentos sociais. Inserindo-se nesse debate, o presente artigo propõe uma perspectiva de análise que possibilite apreender diferentes padrões de relação entre política institucionalizada e política não institucionalizada e, particularmente, como tais padrões oportunizam processos distintos de organização e atuação dos movimentos sociais. Para explorar as possibilidades analíticas de tal perspectiva, aborda-se a trajetória de militantes do denominado movimento de economia solidária no estado do Rio Grande do Sul. Através dessas trajetórias, é possível identificar um processo organizativo que não apenas não se dá externamente ao Estado, mas é, em grande medida, fomentado por agentes e políticas governamentais. Ao contrário de abordar e criticar tal processo como exemplo de cooptação, instrumentalização ou colonização do movimento de economia solidária pelo Estado, busca-se mostrar que ele é fruto de um complexo padrão de relações entre sociedade civil e Estado, mediadas por partidos políticos (e, particularmente, pelo Partido dos Trabalhadores - PT), que emerge e se consolida no Brasil ao longo dos últimos 25 anos.
Resumo O estudo da participação de movimentos sociais na produção das políticas públicas é uma agenda em franco desenvolvimento no Brasil e na literatura internacional. Neste artigo buscamos colaborar com o desenvolvimento dessa agenda, ao oferecer um modelo analítico para abordar aquilo que a literatura tradicionalmente apreende como “contexto político”, que condicionaria a atuação dos movimentos sociais nas suas tentativas de influenciar o Estado. Partindo de um diálogo crítico com a produção nacional e estrangeira, argumentamos que, em vez de se relacionarem com um contexto objetivado e externo que condiciona sua formação e ação, os movimentos sociais devem ser compreendidos como participantes em relações de interdependência com diversos atores e instituições com quem interagem rotineiramente, constituindo o que denominamos de estruturas relacionais. Na análise das relações entre movimentos sociais e políticas públicas, as estruturas relacionais especialmente relevantes analiticamente são os regimes políticos e os subsistemas de política pública. Nosso argumento é que os movimentos sociais não se relacionam com essas estruturas - conforme se depreenderia de uma formulação contextualista -, mas no interior delas, embora normalmente a partir de uma posição de desvantagem ou marginalização.
Nel presentare, nel settembre 1953, il suo volume su II movimento cattolico in Italia, Giorgio Candeloro ne precisava le caratteristiche e ne chiariva l'oggetto attraverso una netta definizione di campo. E una pagina che vale la pena di ri leggere perche sta in primo luogo nell'impianto che vi e illustrato la novita e l'importanza grande mi pare lo si debba dire dell'opera di Candeloro ri spetto alla storiografia sul movimento cattolico quale andava faticosamente co struendosi ed orientandosi in quegli anni, dopo il disdegnoso silenzio che la storiografia sull'Italia unita aveva per lo piui riservato a quel movimento nei precedenti decenni:
Qualquer discussao sobre movimentos sociais nao escapa do questionamento recorrente: afinal, o que sao movimentos sociais? Diferentemente de outros conceitos, este, em particular, apresenta significados distintos, conforme a concepcao a partir da qual se desenvolve. Isso fica evidente nos seminarios, congressos e palestras sobre o tema, nos quais os mais variados tipos de acao coletiva sao classificados como movimentos sociais. Foi a partir do debate realizado numa oficina tematica que nasceu a preocupacao de produzir este paper, na intencao de problematizar um pouco essa discussao. Nao e pretensao esgotar aqui a questao, mas levantar alguns aspectos que podem apontar caminhos no sentido de elucidar certas ambiguidades relativas ao termo, sem, contudo, resolve-las.
Este texto recupera as origens do termo humanização do parto, o reconhecimento da sua assistência ao parto como evento desumanizante, a crítica técnica à assistência, o surgimento de um movimento nacional e internacional de humanização do parto, as políticas de humanização do parto desenvolvidas no Brasil, e as relações entre a crítica à assistência e a criação do movimento pela medicina baseada em evidências (MBE). Com base em um estudo de duas maternidades "humanizadas" do SUS, discute os diferentes (às vezes contraditórios) sentidos do termo, e seu alcance em questionar a cultura técnico-assistencial, a anatomia, a fisiologia femininas, e as relações de gênero. Entre os diferentes sentidos estão: o uso da MBE, o respeito aos direitos (reprodutivos e sexuais, ao acesso universal e ao consumo de tecnologia), o tratamento acolhedor e respeitoso, o manejo da dor do parto e a prevenção da dor iatrogênica, novas atribuições profissionais e disputas corporativas; a relação custo-benefício etc. Longe de querer achar a "humanização certa", busca-se compreender nos diferentes sentidos um diálogo, tenso e produtivo, entre atores sociais em disputa.
A finalidade deste artigo é fazer alguns apontamentos acerca de um tema subexplorado na historiografia brasileira: a trajetória do movimento negro organizado durante a República (1889-2000), com as etapas, os atores e suas propostas. A idéia central é demonstrar que, em todo o período republicano, esse movimento vem desenvolvendo diversas estratégias de luta pela inclusão social do negro e superação do racismo na sociedade brasileira.
A realidade dos movimentos sociais é bastante dinâmica e nem sempre as teorizações têm acompanhado esse dinamismo. Com a globalização e a informatização da sociedade, os movimentos sociais em muitos países, inclusive no Brasil e em outros países da América Latina, tenderam a se diversificar e se complexificar. Por isso, muitas das explicações paradigmáticas ou hegemônicas nos estudos da segunda metade do século XX necessitam de revisões ou atualizações ante a emergência de novos sujeitos sociais ou cenários políticos. Este estudo busca, inicialmente, uma compreensão acerca da nova configuração da sociedade civil organizada, explicitando os múltiplos tipos de ações coletivas do novo milênio.1A partir desta compreensão, busca-se explorar a diversidade identitária dos sujeitos, a transversalidade nas demandas por direitos, as formas de ativismo e de empoderamento através de articulações em rede e, finalmente, a participação política das organizações em rede.
Este artigo apresenta as três principais teorias de explicação dos movimentos sociais, constituídas nos anos 1970; a Teoria de Mobilização de Recursos, a Teoria do Processo Político e a Teoria dos Novos Movimentos Sociais. Em seguida, mapeiam-se as reformulações de que essas teorias foram objeto, seja em reação às críticas recebidas, seja para fazer face às mudanças empíricas das últimas décadas, que acentuaram as dimensões cultural e transnacional do ativismo.
O Autor apresenta neste livro um estudo profundo e didatico sobre os movimentos dos trabalhadores rurais no Brasil, resultante de pesquisas que serviram de base ao texto final, preparado para o projeto Movimentos sociais e democracia emergente na America do Sul, que faz parte do programa Perspectivas da America Latina (PAL).
O conceito de movimento pendular é revisitado e discutido neste artigo, para, com base em estudos teóricos e empíricos, apreender a novas dimensões do processo de reestruturação metropolitana. A importância desse movimento na dinâmica dos principais espaços urbanos do Brasil é revelada por observações preliminares acerca da informação de deslocamento domícilio-trabalho/estudo, pesquisado no Censo Demográfico 2000.
0 rap partilha com outras práticas juvenis a itinerância, a intensidade e a criatividade. Os rappers circulam no espago urbano, fixando e representando o «movimento» hip hop que inclui outras formas de expressão como o graffiti e o break dance. Fixar o Movimento explora a forma como, na segunda metade dos anos 90, este estilo musical entrou na esfera pública em Portugal suscitando interesses e representacóes variadas, numa sociedade em transformação preocupada em gerir a sua identidade multicultural.
Este artigo analisa o movimento da neurodiversidade organizado basicamente por autistas chamados de alto funcionamento que consideram que o autismo não é uma doença a ser tratada, mas uma diferença humana, a qual deve ser respeitada como outras diferenças. O movimento da "neurodiversidade" deve ser inserido em um marco sociocultural e histórico mais amplo que incorpore o impacto crescente no imaginário cultural dos saberes e das práticas neurocientíficas com o paradigma do sujeito cerebral e a expansão da neurocultura. No contexto do sujeito cerebral, o cérebro responde por tudo o que outrora costumávamos atribuir à pessoa e vem se tornando um critério biossocial de agrupamento fundamental. O artigo mostra como uma ideologia solipsista, reducionista e cientificista - o sujeito cerebral - pode servir de base para a formação de identidade e de redes de sociabilidade e comunidade.
Neste artigo, situamos, inicialmente, o surgimento histórico do movimento ciência, tecnologia e sociedade (CTS). Por se tratar de um movimento que emerge em contextos bastante distintos do nosso, num segundo momento discutimos aspectos a serem considerados na configuração de seus objetivos no contexto educacional brasileiro, apontando limitações e desafios que se colocam. Destacamos a nossa inexperiência democrática, relacionada com a trajetória histórica do país, como um dos obstáculos/desafios para colocar a tomada de decisões, em relação à ciência e à tecnologia, numa perspectiva mais democrática (mais atores sociais participando) e menos tecnocrática, aspecto central do CTS.
O texto analisa a relação entre o surgimento, na Amazônia, de movimentos sociais que incorporam fatores étnicos, critérios ecológicos e de gênero na autodefinição coletiva e os processos de territorialização que lhes são correspondentes. Ênfase é atribuída às denominadas “terras tradicionalmente ocupadas”, que expressam uma diversidade de formas de existência coletiva de diferentes povos e grupos sociais em suas relações com os recursos da natureza. Não obstante suas diferentes formações históricas, elas foram instituídas no texto constitucional de 1988 e reafirmadas nos dispositivos infraconstitucionais, como constituições estaduais, legislações municipais e convênios internacionais. Em termos analíticos tais formas designam situações nas quais o controle dos recursos básicos não é exercido livre e individualmente por um determinado grupo doméstico de pequenos produtores diretos ou por um de seus membros. A territorialidade funciona como fator de identificação, defesa e força: laços solidários e de ajuda mútua informam um conjunto de regras firmadas sobre uma base física considerada comum, essencial e inalienável, não obstante disposições sucessórias porventura existentes. Aí a noção de “tradicional” não se reduz à história e incorpora as identidades coletivas redefinidas situacionalmente numa mobilização continuada, assinalando que as unidades sociais em jogo podem ser interpretadas como unidades de mobilização.Palavras-chave: Amazônia; movimentos sociais; territorialidade. Abstract: The article analyzes the relation between the rise, in the Brazilian Amazon region, of social movements that incorporate ethnical, ecological and gender criteria in its self-definition as well as its correspondent territorialization processes. Focus is put on the “traditionally occupied lands” that express diversified forms of collective existence of people and social groups in its relation to natural resources. Despite its different historical formation, these forms has been institutionalized in the 1988 national Constitution as well as in infra-constitutional legal instruments. In analytical terms, these forms indicate situations in which the control over resources is not exercised freely and individually by some domestic group of direct little producers or one of its members. The territoriality operates as a factor of identification, self-defense and strength: solidarity linkages and mutual help practices nourish the creation of a set of rules based on a common physical terrain, seen as essential and inalienable. The notion of traditional is here not reduced to history, but incorporates collective identities defined in a continuous mobilization through social figures interpreted as mobilizing unities.Keywords: Amazon region; social movements; territoriality.
RESUMO Este artigo examina processos de mudança nos movimentos feminista, negro e no atualmente conhecido como LGBTI. Objetiva produzir aproximações comparativas sobre a produção de enquadramentos e as formas de organização de cada um deles, considerando suas trajetórias nas últimas quatro décadas. É dada ênfase especial aos anos recentes e ao modo como as noções de experiência e interseccionalidade têm operado no período pós-2010, notadamente em iniciativas ativistas protagonizadas por jovens. Para tanto, lança-se mão de uma perspectiva teórica relacional e processual, em diálogo com estudos socioantropológicos que têm se debruçado sobre movimentos sociais. O artigo se baseia em material etnográfico e revisão de literatura.